Resenha | Cornucópia, BRÄO e a máscara que liberta a alma

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E ae meus queridos, tudo certo? Hoje o texto é sobre a boa e velha putaria. Cornucópia, do BRÄO é sobre ela, com toda sua e volúpia, sem pudor e direto ao ponto. Esse material é do tipo que você sente falta hoje em dia, porque ou ele é muito ruim ou Hentai/Ecchi, afinal o pornô brasileiro não é lá essas coisas. BRÄO trabalha em Cornucópia unindo o prazer sexual a um ambiente onde a pessoa pode ser o que ela quiser, libertando-se do seus desejos mais profundos longe dos julgamentos sociais e se entregar ao ato, em um frenesi de sexo. Já havíamos falado disso no post de apresentação do quadrinho.

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Cornucópia - BRÄO - Catarse - Resenha - BecoNerd (5)O próprio nome do quadrinho já remete a desejo, Cornucópia é um vaso/cesto em forma de chifre sempre cheio de frutas, legumes, frutas e muito ornamentado. Representa a abundância em si, tanto de alimentos quanto economicamente, em significados mais religiosos a sua forma é atribuída ao falo, órgão sexual masculino e o seu interior ao útero. (WIKIPÉDIA, 2016 – pique TCC kk’) Devaneio á parte, Cornucópia é uma representação clara e descarada de abundância e desejo sexual.

Em seu mega tamanho de 19,5 x 26 cm e capa dura trabalhamos com páginas cheias, um quadro por página no lado direito e um frame… sei lá, um pedaço de quadro bem menor na esquerda, não manjo dos termos, mas é isso. E é extremamente interessante como a narrativa conversa entre essas duas páginas, não sei se foi intencional, mas ela funciona de forma reversa também, vou explicar mais a frente.

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A narrativa gráfica de Cornucópia está muito ligada a imagem da máscara presente, e já que já falamos de sociedade e julgamentos no texto, vamos melhorar isso. A máscara é uma representação social das múltiplas faces de uma pessoa, assim como, uma forma de proteger a identidade, temos diversas máscaras, sou uma pessoa no trabalho, outra na minha casa, na casa dos amigos e assim vai, essas são as minhas, você também tem as suas, necessariamente não usamos uma mascará propriamente dita, não para ocultar o meu rosto, mas pra ocultar meus desejos, minhas vontades, as máscaras sociais têm essa função, em Cornucópia ela mostra o lado mais carnal da protagonista, no meu autógrafo está escrito “A máscara, liberta a alma”… e sim, entre quatro paredes expomos a nossa alma, o que você é ali, é o seu verdadeiro eu, é o que você é em todos os outros aspectos da vida, com um ou dois desejos reprimidos.

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Apesar de conter pouquíssimo texto, cornucópia é uma viagem gráfica, voltando a falar das páginas, na direita temos o quadro cheio, quase um A4 de um traço sensacional e envolvente, cheio de detalhes, sempre descubro algo que deixei passar despercebido, a página da direita é como olhar pra uma obra de arte, você sempre vai ficar procurando algo ali, na da esquerda, o pequeno frame, representa parte de um ritual, a preparação da protagonista pra o que acontece na da direita, na delicadeza e no esmero de estar pronta para a sua Cornucópia, o ato de vestir-se e maquiar-se, até colocar a máscara, temos isso em V de Vingança, quando o anti-herói se prepara pra combater seus fantasmas e em Batman: Xamã que um dia vai aparecer por aqui.

Acho a falta de texto um ponto positivo, porque abre a mente do leitor para múltiplos significados, mesmo o sexo sendo algo que não tem segredo algum, o leitor ainda pode viajar imaginando o que os personagens estão pensando e como tudo se encaixa naquele contexto. O diálogo entre a página da esquerda e da direita é pra mim a melhor coisa de cornucópia e a maior surpresa, porque ela é de uma delicadeza sem fim, BRÄO conseguiu retratar o sexo de uma forma sublime, mesmo sendo totalmente exposta e escrachada, existe a delicadeza do toque feminino, a sutileza dos gestos, o ritual. Se você folhear de trás pra frente, a página da esquerda se torna o final do ato, assim como é o começo, retirar toda a roupa e a maquiagem e voltar a ser uma pessoa comum, que mesmo sem máscara, ainda tem camadas e camadas pra enfrentar a sociedade.

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O traço é um marco, retratando as pessoas como elas são, com gordurinhas e tudo, sem aquele traço limpo que constrói corpos esculturais, que obviamente não existem. Cornucópia traça o padrão do comum, com corpos que vemos nas esquinas da vida. Sem dúvida, BRÄO acertou no tema e nos elementos e construiu seu caminho com tijolos sólidos na cena independente de quadrinhos, e mais, fincou a pedra fundamental da sua arte, claro que adoraria ver o cara mandando bem em outros temas, mas a putaria sempre será bem vinda quando tiver a assinatura dele. Já fizemos o pedido de uma Capa Alternativa do BRÄO para A Ruiva 2, do Felipe Cagno, não sou grande fã de Sketchbooks pra ir atrás do seu trampo anterior, o BAD WOMENmas quem sabe um dia, com dinheiro sobrando e lá pros lados da Ugra Press.

É isso aí, até mais.