Resenha | Manual Prático do Ódio, Ferréz

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Eae meus queridos? Tudo a pampa? Aff, o que foi esse vocabulário? São os resquícios da linguagem presente em Manual Pratico do Ódio, do Ferréz. E mais uma vez o Beco Nerd vai no seu habitat buscar uma boa literatura marginal pra vocês. Sem muitas delongas, já que tenho várias fitas pra resolver hoje, vamos ao que interessa.

Manual Prático do Ódio está inserido no mesmo universo de Capão Pecado, o famoso e violento Capão Redondo, só que em contrapartida do seu primeiro livro, Ferréz vem mais visceral neste, retratando a vida da bandidagem na maior parte do livro e não com a mesma sintonia que existe em Capão Pecado. Basicamente, Manual Prático do Ódio conta a história da vida de 6 criminosos da velha guarda, Lucio Fé, Neguinho da Mancha na Mão, Celso Capeta, Aninha, Mágico e Regis, que estão envolvidos em uma fita que vai dar muito dinheiro e um pouco mais adiante na trama, na briga/treta existente entre eles e os moleques que estão ascendendo no crime.

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Paralelamente a essas tramas primárias, Ferréz retrata o cotidiano da favela, através de diversos outros personagens, como José Antônio, recém pai de família desempregado, as namoradas da bandidagem, as comadres, o pivete denoitinha – que na minha opinião, merece um livro sobre superação, com ele no badalo – e inúmeros outros que mostram o lado bom e o lado ruim de morar na favela. Esse é o espaço em que o autor aproveita pra mostrar a dura e crua realidade da comunidade.

Ferréz utilizou o recurso de múltiplos pontos de vista como forma de escrita em Manual Prático do Ódio, então leitor, ter uma caneta e um papel na mão ajuda a entender melhor a história desenhando a relação dos personagens entre si e com terceiros, já que muita coisa retorna com gancho na segunda parte da leitura, e você – como eu – não vai precisar ficar indo e voltando na história pra entender que treta é essa que o mano tá cobrando?

Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz é sempre muito sincero em sua escrita e as vezes isso até incomoda, mas qual seria o papel da literatura marginal se não esse? E não digo que incomoda pela sinceridade, e sim, porque assim com Capão Pecado, estamos mais uma vez em um território conhecido. Antes de decidir escrever a resenha eu fiquei dias pensando e mastigando as ideias do livro, no começo pensei que ele era repetitivo, abordando o mesmo tema de Capão Pecado, sim é repetitivo porque a situação da quebrada não mudou, e acredito que o Ferréz vai repetir a história quantas vezes forem necessárias pra mostrar o seu ponto de vista e defender a favela.

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Tenho certeza que a elite não aprova, assim como alguns órgãos governamentais, assim como algumas oligarquias, detestam o Ferréz já que ele sempre bate na tecla, e com a força de um martelo russo, da corrupção que destrói o nosso sistema, na exploração dos mais pobres, na desigualdade social e mais uma infinidade de mazelas que afligem as favelas no Brasil, e que estamos cansados de ver nos jornais. Engana-se quem pensa que isso só acontece aqui no Capão.

Em suma, o Manual Prático do Ódio é aquele livro pra incomodar os acomodados! Então pega o livro, senta, lê e aguenta a pedrada.

PS. Já li e estou matutando as ideias pra resenha de Desterro!

FICHA TÉCNICA

Título: Capão Pecado
Autor: FERRÉZ
Editora: Editora Objetiva
Especificações: Brochura | 152 páginas
ISBN: 85-7302-720-7