Resenha | Lavagem, Shiko

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Manolos, é pesada e foderosa!

Lavagem, essa HQ sensacional do Shiko, narra a história de um casal que definha entre os manguezais. Ela é crente, temente a Deus e hipócrita, por alimentar uma relação fora do seu casamento, e ele passa grande parte do seu tempo com os porcos e está pouco se fodendo para o mundo. Essa é a base de Lavagem, que retrata com maestria os caminhos tortos que a religião pode tomar quando subvertida as vontades humanas, quando o homem faz a igreja e manipula as palavras da bíblia a seu favor.

Na pela da protagonista temos esse paralelo com a hipocrisia relacionada àqueles que fingem ser cristãos, mas que na verdade possuem pecados em carne e pensamento. No protagonista, nós temos, como diz na sinopse, o emburrecimento, a ignorância como um vetor, de fato, ele reflete a amargura de uma vida inteira.

Lavagem, é uma HQ extremamente curta e complexa, aberto a diversas interpretações, nem mesmo sei se vou conseguir passar claramente o que senti durante a leitura. O pano religioso que serve de fundo, alcança seu apogeu quando através de uma pregação televisionada, a TV falha e do seu chiado surge um homem na porta do nosso casal, com o pretexto de ser um servo de Deus, e que se ele está ali é porque Deus o quer ali. 

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O termo Lavagem é polissêmico e representa diversos significados que são tratados na HQ, como o ato de Lavar-se, como uma forma de purificar a alma; Lavagem cerebral, a termos mais relacionados a ficção científica, para retratar o abuso de semântica por parte dos pastores da TV, que tentam convencer a todo custo os seus fiéis, a comida para os porcos, que também é tida popularmente como os restos da comida ou simbolicamente como algo ruim.

De uma forma geral a HQ retrata o pior do ser humano, sem entrar no absurdo, retrata de forma sublime a “imundice” social e psicológica a qual o ser humano está submetido. Shiko, consegue de uma forma espetacular, demonstrar a agonia da protagonista em diversas passagens, o terro psicológico que ela sofre, algumas cenas conseguiriam causar asco, o que foi sensacional.

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Ainda divagando sobre a Lavagem, teve uma coisa em particular que não consegui compreender, a simbologia por trás de uma cabeça de boneca que aparece em diversos quadros, na resenha do Universo HQ, eles tratam a boneca como uma representação dos “círculos infernais destinados ao suplício das almas dos condenados”, na abordagem dantesca.

Outro ponto interessantíssimo da HQ, e prometo, esse é o último. É a força da protagonista. Em Lavagem, a todo momento os personagens estão no seu limite, lutando contra si próprios e com as consequências dos seus atos, e a nossa protagonista é a quebra desse impasse, ela extravasa com um grande e maravilhoso foda-se.

O trabalho editorial da Mino é primoroso, quando você pega Lavagem na mão pela primeira vez, não sobra dúvida do esmero que a editora teve com o material, a capa é lindíssima, fosca e limpa. As páginas são de excelente material e como a Bah, do Cuzcuz Literário disse em sua resenha, “parece que as páginas foram desenhadas uma a uma pelo Shiko”, em cada edição, em algumas dá até para ver os traços do rascunho, Que-Trampo-Lindo *-*.

A edição da Mino conta com Capa dura, 72 páginas, papel pólen bold, formato 28 x 19,5 cm e pelo preço de R$ 44,00 com frete incluso na página da Editora Mino

Depois de ler Lavagem, eu praticamente corri atrás dos outros trampos do Shiko, Já consegui a Graphic MSP – Ingá, e estou atrás do Azul indiferente do Céu, que é da Mino, A Boca Quente, lançado de forma independente, Marginal, da Marca de Fantasia e O Quinze, adaptação gráfica do romance de Rachel de Queiroz, da Editora Ática, algumas delas estão disponíveis na Comic House, mas vou esperar a CCXP pra ver se pego lá chorando T.T um desconto o/.

Lavagem-Shiko-capa2-Mino-Resenha (2)Sinopse

Um casal vive isolado em um mangue: ela é analfabeta e temente a Deus, mas deseja o pecado quando cruza o estuário de balsa para seu encontro com o divino. Ele, descrente em virtude do embrutecimento oferecido pela vida, divide seu tempo mais com os porcos do que com as pessoas.

Um dia, quando os brados de “aleluia!” do pastor na televisão dão lugar ao zumbido incessante da estática, bate à porta do casal um “homem de Deus”, que transpôs a inacessível maré alta para trazer muito mais do que a “palavra” decorada entre seus dentes ou pinçada aleatoriamente da Bíblia Sagrada.

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